A pollera boliviana, peça característica das mulheres indígenas, carrega uma história complexa que atravessa séculos. Introduzida na Bolívia durante a colonização espanhola no século 16, a saia ampla foi inicialmente uma imposição da Coroa. Segundo a historiadora Sayuri Loza, o design deriva de trajes usados por mulheres na região espanhola de Castela e Leão, cujas peças foram adaptadas para se tornarem parte da identidade das populações aimaras e quíchuas, consolidando-se mesmo após a independência do país em 1825.
O visual das chamadas “cholitas” é complementado pelo chapéu-coco, ou bombín, que se tornou um símbolo social por volta de 1920. A lenda mais difundida indica que o acessório chegou ao país para trabalhadores de ferrovias, mas, por serem pequenos demais para os operários, foram comercializados entre as mulheres indígenas. Após décadas de marginalização e restrições em espaços públicos durante o século 20, a vestimenta passou por um processo de ressignificação, deixando de ser um alvo de discriminação para se tornar um emblema de resistência e orgulho cultural.
A força dessa identidade alcançou novos patamares com as Cholitas Escaladoras. Em dezembro de 2015, um grupo liderado por Lidia Huayllas Estrada conquistou o cume do Huayna Potosí, a 6.088 metros de altitude, vestindo suas polleras tradicionais. Ana Lía “Lita” González, uma das fundadoras, explicou à Unesco que o movimento surgiu em resposta à violência e ao feminicídio. Desde então, as escaladoras expandiram suas conquistas para picos como o Aconcágua, na Argentina, atingindo 6.960 metros em 2019, e passaram a atuar profissionalmente como guias de montanha.
Atualmente, a ocupação de espaços historicamente negados às mulheres indígenas estende-se ao asfalto. O coletivo Warmis Sobre Ruedas, fundado em 2021, promove a prática do skate entre meninas e jovens em La Paz. Para essas skatistas, realizar manobras vestindo a pollera é uma forma de honrar a ancestralidade e reivindicar sua cultura em um esporte globalmente reconhecido pela valorização da individualidade. Nas competições organizadas pelo grupo, a técnica e a vestimenta tradicional são integradas, transformando a herança cultural em um componente essencial da prática esportiva.
Imagem meramente ilustrativa. Crédito da ilustrativa: Calle Bolivia.com
