A fiscalização na Alfândega de Foz do Iguaçu flagrou uma advogada de 42 anos tentando entrar no Brasil com sete canetas emagrecedoras escondidas sob a roupa. O nervosismo de Mariane (nome fictício) chamou a atenção da Receita Federal durante a abordagem a um mototaxista vindo do Paraguai. Inicialmente, ela alegou portar apenas um pote de doce, mas a inspeção revelou o transporte ilegal da substância retatrutida, que estava fixada ao seu corpo com fitas adesivas sob um casaco.
O potencial e os riscos da nova molécula
A retatrutida é uma molécula experimental desenvolvida pela farmacêutica americana Eli Lilly, ainda em fase de testes e sem aprovação para uso humano ou comercialização em qualquer país. O entusiasmo em torno do medicamento deve-se ao seu potencial de perda de peso, que pode chegar a 28,7% em um período de 15 meses, superando os resultados de drogas populares como a semaglutida e a tirzepatida. Diferente de suas antecessoras, essa nova substância atua em três receptores hormonais distintos, prometendo uma redução de apetite e desaceleração da digestão ainda mais acentuadas.
Apesar da ausência de registro sanitário, o produto circula livremente em Ciudad del Este, no Paraguai, de onde é trazido em grandes volumes para o território brasileiro. Mariane relatou que utilizava o medicamento há seis meses, período em que perdeu mais de 20 kg, e decidiu buscar o produto na fonte para economizar cerca de R$ 300 por unidade. “Tenho mais medo da gordura do que de aplicar esse medicamento em mim”, afirmou à BBC News Brasil ao ser autuada pela Receita Federal antes de ser liberada para retornar a São Paulo.
Dados alarmantes de apreensões no Paraná
Dados oficiais indicam que as apreensões de canetas emagrecedoras no Paraná dispararam no início de 2026. Nos primeiros três meses do ano, o valor das mercadorias retidas pelas autoridades já superou o total registrado em todo o ano de 2025, ultrapassando a marca de R$ 11 milhões. Em Foz do Iguaçu, esses itens já representam o segundo produto mais apreendido, ficando atrás apenas dos aparelhos celulares, com a retatrutida correspondendo a quase 10% do volume total de fármacos confiscados no estado.
Especialistas e órgãos reguladores alertam para os perigos severos do uso de substâncias sem controle sanitário. A médica Carolina Janovsky, da Unifesp, ressalta que “ninguém sabe se teve controle sanitário correto, se a dose que diz é a que tem, se está contaminado, se tem outra substância misturada”. A Eli Lilly reforçou que versões não originais podem ser fatais, enquanto a Dinavisa, agência reguladora paraguaia, emitiu um alerta informando que os produtos vendidos como retatrutida no país vizinho não possuem registro e podem conter ingredientes perigosos.
O cenário comercial em Ciudad del Este é marcado por farmácias que exibem anúncios em português e oferecem brindes para quem divulgar as compras em redes sociais. Embora a legislação local exija receita médica para a venda desses fármacos, atendentes confirmam que não há restrições reais para a aquisição de grandes quantidades por brasileiros. Investigações apontam que o laboratório indicado nas embalagens possui um endereço residencial na Alemanha, mas a suposta empresa não respondeu aos contatos para esclarecer a procedência e a segurança do que está sendo comercializado.
