A primeira-dama Janja da Silva defendeu a retirada do Discord do ar no Brasil após a morte de uma adolescente de 13 anos em Mato Grosso do Sul. Ela pediu o bloqueio “imediatamente” durante cerimônia no Palácio do Planalto, na última quinta-feira (7/8), quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou lei que amplia a punição para violência sexual contra crianças e adolescentes.
A polícia apreendeu cinco adolescentes, entre 13 e 17 anos, e prendeu um homem de 18 anos, acusados de envolvimento no caso. As investigações apontam que o grupo usava o Discord e o Telegram para atrair vítimas meninas, disseminar discursos de ódio, promover a radicalização de jovens e estimular comportamentos violentos.
“A gente precisa bloquear o Discord no Brasil de qualquer forma”, disse Janja. O advogado-geral da União, Jorge Messias, afirmou que vai pedir a responsabilização da plataforma e a retirada de sua utilização pela sociedade brasileira, segundo o portal G1. O Secretário Nacional de Direitos Digitais, Victor Fernandes, informou que a polícia pediu a suspensão, mas o Judiciário negou.
Dados da Safernet mostram aumento de 54% nas denúncias envolvendo o Discord de janeiro a julho de 2026, em comparação com o mesmo período de 2025. Foram 406 casos neste ano, contra 264 no ano passado, um recorde na série histórica iniciada em 2017.
Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil avaliam que o bloqueio não resolve o problema e pode incentivar o uso de VPNs, além de empurrar usuários para plataformas sem representação legal no país. “Os crimes vão continuar acontecendo, provavelmente dentro do próprio Discord, usando VPNs e outras ferramentas de acesso que contornam bloqueios”, diz Thiago Tavares, presidente da SaferNet Brasil.
Thiago Ayub, diretor de tecnologia da Sage Networks, alerta para o “efeito rebote”: “A nova plataforma a ser escolhida possivelmente será uma sem representante, mais distante ainda do alcance das leis brasileiras”. Ele lembra que o Brasil já tem histórico de bloqueios de grandes plataformas, como o X, sob ordem do Supremo Tribunal Federal, e que a medida é tecnicamente possível, mas não 100% eficaz.
O Discord afirmou em nota que “não tolera grupos ou indivíduos que promovem ou incentivam a violência” e que coopera com as autoridades brasileiras. A plataforma destacou que mantém diálogo contínuo com o Ministério da Justiça e tem reportado indivíduos às polícias, contribuindo para operações que resultaram em prisões.
Especialistas apontam deficiências na moderação e na verificação etária, além da necessidade de treinar modelos de detecção em português. Tavares ressalta que o Brasil está entre os cinco maiores mercados do Discord, e que a plataforma tem “deficiências claras na capacidade de detecção de conteúdos criminosos” e “poucas barreiras de entrada”. O bloqueio, concluem, pode até disseminar o uso de ferramentas de contorno, como mostrou a experiência com bets no país.
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