A decisão da Polícia Federal de impor um sigilo de 100 anos sobre a lista de visitantes do empresário Daniel Vorcaro, detido no âmbito do caso Master, tem sido alvo de contestações jurídicas e políticas. A restrição, que impede o acesso público aos registros até o ano de 2126, foi justificada pela PF com base na proteção de dados pessoais sensíveis, como CPFs e vínculos com o detento. Contudo, especialistas em Direito argumentam que a negativa integral de acesso contraria princípios de transparência e moralidade, sugerindo que a corporação poderia ter optado pela divulgação parcial dos documentos, ocultando apenas as informações protegidas pela Lei de Acesso à Informação (LAI).
Juristas ouvidos sobre o tema apontam que, embora a legislação preveja restrições para dados pessoais, a aplicação dessa medida em casos de alto impacto público — comparáveis a investigações complexas como o combate a organizações criminosas — gera questionamentos sobre o que exatamente está sendo resguardado. O constitucionalista André Marsiglia destaca que a proteção à privacidade não deveria ser um escudo automático para impedir o controle social, especialmente quando há suspeitas de que autoridades ou agentes públicos possam ter visitado o investigado. A disparidade de critérios entre órgãos federais é reforçada pela comparação com a Advocacia-Geral da União (AGU), que em outros contextos chegou a divulgar dados de investigados em respostas formais.
Diante do impasse, a deputada federal Adriana Ventura (Novo-SP) apresentou um requerimento ao Ministério da Justiça solicitando esclarecimentos sobre os fundamentos jurídicos da medida. A parlamentar busca identificar se figuras de interesse público estiveram presentes nas visitas e defende que a transparência é essencial para a fiscalização de casos de relevância nacional. Enquanto a Polícia Federal não responde aos questionamentos sobre a motivação específica do sigilo centenário, especialistas reiteram que a medida levanta um debate sobre o equilíbrio entre a proteção à intimidade e o dever do Estado de prestar contas à sociedade em episódios que afetam o interesse coletivo.
