STF autoriza terceiro inquérito contra Lulinha

O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou a Polícia Federal (PF) a abrir um terceiro inquérito contra Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A decisão foi tomada em 4 de agosto, um dia depois de Dino ser sorteado para relatar o caso.

A nova apuração investiga suspeitas de tráfico de influência envolvendo Lulinha e aliados em negócios com órgãos do governo federal. Segundo a apuração inicial, uma das frentes envolve uma empresa de tecnologia que mantém contratos de R$ 81,1 milhões com a União. A suspeita é que o parentesco com o presidente tenha sido usado para influenciar a obtenção dos contratos.

Três investigações sobre suspeitas distintas

Os dois primeiros inquéritos foram autorizados pelo ministro André Mendonça. O primeiro apura suspeitas de tráfico de influência e corrupção relacionadas à flexibilização de regras para a cannabis medicinal, com possível atuação do lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”, em negócios ligados ao Ministério da Saúde e ao Palácio do Planalto.

O segundo investiga eventual influência indevida na obtenção de contratos com a Dataprev, empresa pública responsável pela gestão de dados sociais do governo, especialmente do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). A PF apura a possível atuação de Lulinha, Antunes e da empresária Roberta Luchsinger.

A Dataprev afirma que não tem contrato com a empresa 3Structure It, citada na investigação, e diz colaborar com os órgãos de controle. O Ministério da Saúde também declarou que Alexandre Padilha nunca recebeu Luchsinger e que não possui contrato com a empresa World Cannabis. A pasta acrescentou que produtos relacionados ao caso não foram incorporados ao Sistema Único de Saúde (SUS).

O diretor-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Leandro Safatle, negou relação com Antunes. Ele afirmou que um encontro com o senador Weverton Rocha ocorreu para tratar de sua sabatina para o cargo e que, no caso da cannabis, a agência apenas cumpre decisões do Superior Tribunal de Justiça (STJ).

Mensagens apreendidas pela PF mostram conversas entre Luchsinger e Antunes sobre oportunidades comerciais no setor público, incluindo cannabis medicinal, kits de dengue e projetos de educação financeira. Em um dos diálogos, Padilha é citado como possível interlocutor para facilitar contatos com a Anvisa. O Ministério da Saúde nega que Padilha tenha recebido Luchsinger.

Defesa contesta suspeitas e questiona vazamentos

A defesa de Lulinha afirmou que recebeu a abertura de novos inquéritos com tranquilidade e que ele esclarecerá dúvidas sobre suas atividades profissionais. O advogado Marco Aurélio de Carvalho sustenta que o cliente não tem relação direta ou indireta com irregularidades e espera o arquivamento de uma investigação relacionada às fraudes no INSS.

Após a divulgação de conversas protegidas por sigilo, Dino também autorizou uma investigação sobre possíveis vazamentos. Há divergência na forma de contabilizar os procedimentos: uma das descrições trata a apuração dos vazamentos como um quarto inquérito, separado das três investigações sobre Lulinha; outra apresenta os dois pedidos acolhidos por Dino como um novo inquérito contra o empresário e uma investigação autônoma sobre a divulgação ilegal de dados.

Luchsinger é apontada como amiga próxima de Lulinha e também aparece nas investigações sobre fraudes na Previdência. Em maio de 2026, ela disse ter apresentado Lulinha a Antunes por “boa educação” e negou ter intermediado negócios. A defesa da empresária informou que responderá às perguntas no processo.

Também foram identificadas transferências de Luchsinger para Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, que deixou a chefia de Gabinete de Lula em 21 de julho de 2026 para atuar na campanha à reeleição. O valor exato não foi divulgado, mas é estimado em cerca de R$ 80 mil. Marcola afirma que se tratou de um empréstimo pessoal já quitado e nega qualquer ilegalidade.

O vice-presidente nacional do PT, Washington Quaquá, defendeu Marcola e classificou o episódio como uma “bobagem”. O partido não apresentou manifestação oficial sobre o caso. O entendimento atribuído a integrantes da legenda é que o episódio não teria potencial para prejudicar a campanha, desde que os comprovantes do empréstimo sejam apresentados.

Em 30 de julho, Lula afirmou que o filho deverá responder como qualquer pessoa e que não ficará escondido caso seja julgado. As investigações ocorrem durante o período que antecede a campanha eleitoral, mas ainda não há conclusão sobre eventual responsabilidade criminal de Lulinha ou dos demais citados.

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