Mudança no perfil dos beneficiários
Na próxima vez que você chamar um carro por aplicativo ou pedir comida por delivery, há uma chance considerável de o trabalhador envolvido receber algum tipo de auxílio do governo. Dados de 2025 do Government Accountability Office (GAO), órgão de fiscalização do governo americano, colocam DoorDash, Lyft e Uber entre os empregadores com o maior número de funcionários inscritos no SNAP, o programa de assistência alimentar dos Estados Unidos.
Esse cenário representa uma virada em relação a 2020, quando Walmart e McDonald’s apareciam no topo da lista do GAO. Na época, o trabalho por plataformas era visto como uma atividade secundária, mas o levantamento mais recente mostra que ele ganhou relevância como fonte de sustento — ainda que nem sempre cubra despesas básicas como alimentação e cuidados médicos.
Trabalho por aplicativos como fonte de sustento
Uma pesquisa conduzida em Michigan com mais de 1 mil moradores, em parceria com o Michigan Metro Area Communities Study, identificou que 22% dos entrevistados já realizaram algum tipo de trabalho por aplicativos ou plataformas. Desses, cerca de metade afirmou que a atividade era essencial ou importante para atender às necessidades básicas. Os dados apontam que essas funções deixaram de ser apenas um complemento de renda.
As plataformas costumam vender a ideia de liberdade de horário, e isso é valorizado pelos trabalhadores: nove em cada 10 disseram apreciar a flexibilidade, e mais de dois terços avaliaram a experiência de forma positiva. No entanto, também há preocupações com transparência, remuneração e ausência de benefícios. A questão central não é se os trabalhadores querem flexibilidade, mas se a renda obtida é suficiente para o sustento.
Impacto no Medicaid
O relatório do GAO também revelou que as plataformas, juntas, ocupam a terceira posição entre os empregadores com mais trabalhadores inscritos no Medicaid, programa público de saúde para pessoas de baixa renda. Em 2020, elas nem apareciam entre as cinco primeiras. Com as novas regras do Medicaid, a situação pode ficar ainda mais delicada: beneficiários precisam comprovar 80 horas mensais de trabalho ou estudo para manter a cobertura.
Atividades feitas por aplicativos contam para essa exigência, mas a comprovação é complicada. Os aplicativos usam formatos diferentes de registro, não emitem comprovantes padronizados e não consideram o tempo em que o trabalhador fica esperando por uma corrida ou entrega. A imprevisibilidade da demanda também dificulta o cumprimento das horas. O receio é que pessoas elegíveis acabem perdendo o seguro por causa da burocracia, deixem de buscar atendimento básico e acabem internadas em situações mais graves.
Benefícios portáteis como solução
Uma alternativa discutida por estados americanos são os chamados “benefícios portáteis”, em que empresas ou usuários dos aplicativos contribuem para fundos que acompanham o trabalhador, mesmo quando ele atua em diferentes plataformas. Na pesquisa, 61% dos trabalhadores de aplicativos apoiaram a proposta, que também teve aceitação de mais da metade dos profissionais de outras modalidades.
O estado de Nova York é um exemplo prático. O Black Car Fund, fundo sem fins lucrativos criado para motoristas de táxi e limusines, passou a incluir motoristas de aplicativos em 2014, financiado por uma tarifa cobrada dos passageiros. Em 2023, o estado fechou um acordo de US$ 328 milhões com Uber e Lyft, que retiveram pagamentos e benefícios, e também garantiu licença médica remunerada e remuneração mínima. O modelo mostra como parte dos custos sociais pode sair dos ombros dos contribuintes e ser transferida para os usuários dos serviços.
Imagem meramente ilustrativa. Crédito da ilustrativa: Caput Consultoria
